terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Da Química

Da química

Em nossas estruturas; mudanças sofridas,
Nota da matéria e suas reações à energia,
São leis da afinidade em vínculos bebidas,
Laços fortes de arrepio que causam poesia.

Beijos alteram temperaturas; gera agitação,
Moléculas se chocam com maior facilidade,
Toque, pele, cheiros; ‘inexplica-se’ atração,
Barba por fazer; sei lá, é tanta insanidade!

A ciência até tenta esclarecer o tal processo,
E explica-se algo que atiça antes de ser feito?
Tantas teorias, só quem sente sabe o efeito.

E dos nossos corpos; sabedores do ingresso.
E ocupam ao mesmo tempo o mesmo lugar,
Na alma, massa e volume baralham a vibrar.

Raquel Ordones
 Uberlândia MG – 21/02/16
 Soneto infiel – sem métrica


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Solipsismo

Solipsismo

É; Além de mim, só minhas experiências,
E eu sou instituída pelo o meu eu passado,
Meu atravessar se foi; ficaram as ciências,
O que restou foi apenas meu eu atualizado.

E tudo pode ser contestado, além de mim,
Teoria que reduz o fato ao anexo pensante,
Só existe o eu e todas as sensações, enfim,
Onde eu sou eu, de tudo, único participante.

A singular realidade do mundo é o meu eu,
É  conjunto de costumes de um ser solidão,
E revestido de matizes, tal qual um ermitão.

E então, como conhecer outras realidades,
Se nada é externo a mim, ser Solipsismo?
E sou absoluto no eu, permanente egoísmo.


Raquel Ordones
Uberlândia MG – 15/02/16
Soneto infiel – sem métrica

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Sem sentimento?

Sem sentimento?

Vou tentar escrever um poema sem sentimentos,
Estou dentro de mim nas coisas novas e entulho,
Tentando fazer a separação, para procedimentos,
Não percebo nada sem sentido, nenhum barulho.

Desse lado tem eu, dentro do coração sou espaço,
É que ele está inteiramente tomado por saudade,
Misturada homogeneamente com amor e abraço,
Encontrei nada, por isso no estômago, ansiedade.

Na superfície da pele, senti um arrepio, não vale,
Nos olhos vejo a beleza e nada faz com que cale,
O dedo sente cansado, viu? Sentiu; me entende?

Aqui na alma, frenesi; não tem quem a defende!
Nas minhas veias percebo da vida uma irrigação,
É; não tem como escrever, se eu sou meu coração.


Raquel Ordones
Uberlândia MG – 10/02/16
Soneto infiel – sem métrica

Poema em ão

Poema em ão

Disseram-me que é pobre poema terminado em ão,
Pensei aqui comigo; cheguei à conclusão: acho não,
Há pessoas que faz da poesia sua própria respiração,
Já outros dizem ser coisa de babaca, uma defecação.

Então, sobre esse assunto cada um tem sua opinião,
E logo, quem escreve, pode escolher sua terminação,
Há quem faz poema magoado carregado de solidão,
Há quem escreve sobre amor sem amar, pretensão!

Há quem escreve sem nenhuma forma de pontuação,
Há quem junta palavras e fica difícil a interpretação,
Há quem verseja assim: Ah! Oh! É tanta interjeição.

Não vejo pobreza, e ninguém tem que dar satisfação,
Coração termina em ão, o que falta é respeito, então,
Pobre seria se as pessoas escrevessem sem a emoção.


Raquel Ordones
Uberlândia MG – 11/02/16
Soneto infiel – sem métrica

'Poe(ma)sculino

‘Poemasculino’

Horizonte, esconderijo do sol, expediente se encerra,
Encosta-se à cadeira e coloca a tampa naquela caneta,
Alonga as pernas e por alguns minutos os olhos, cerra,
Afrouxa a gravata marinho e fecha com o pé a gaveta.

A última xícara de café e a porta, ele fecha atrás de si,
Atravessa a rua, entra em um modesto bar em frente,
Uma cerveja, um cigarro, olhar perdido e fica por ali,
O amigo chega ,o acompanha, pede outra de repente.

E pede mais bebida, a hora passa e já são quase dez,
Segunda feira, primeiro dia, jantar em casa o espera,
Chega depois das onze, bafo de onça, encontra a fera.

Fez disso uma rotina, vida sem graça, olhado de viés,
O filho mal vê, da sua companheira perdeu o carinho,
_E além do boteco, o que mais teria em seu caminho?

Raquel Ordones
Uberlândia MG – 15/02/2016

Soneto infiel – sem métrica

Desentortando versos

Desentortando versos

Era para ser triste o poema que eu ia escrever,
E foi no verso seguinte que o verbo eu mudei,
Coloquei sorrisos; e sonhos bons pude prever,
Expressões que pudessem ferir; todas eu tirei.

Eu escrevi muitas flores e a tristeza foi embora,
Usei gradações,  dessa mágoa nenhum prurido.
E escrevi tanta coisa boa por esse poema afora,
Talvez  tenha até ficado comigo meio ofendido.

Mas nem liguei, eu que escrevo meus caminhos,
Sou eu que varro o que para mim não tem valor,
Foi por isso que derramei no papel o meu amor.

Ordenei ao vento para que levasse os espinhos,
E mostrou-me uma clareira que eu podia pintar,
Desentortei o poema triste só para ele me alegrar.


Raquel Ordones
Uberlândia MG – 15/02/16
Soneto infiel – sem métrica

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

"Das acontecências"


(imagem do Google)
‘Das acontecências’

Ela se intitula: namorada; é conveniente.
Na balada ela está a tiracolo é a princesa,
Lá no barzinho é exibida por ser atraente,
Ele alheio. Ela: manga de fora, vira a mesa.

E na garupa da sua moto ela vive divando,
E no carro ela que manda; primeira dama,
E mora no mundo da lua, por ai viajando,
As bebidas, comidas, viagens e até cama.

Academia, salão de beleza marca presença,
O dia todo batendo perna, ele a sustenta,
E roupas caras com joias raras ela ostenta.
                                           
Se ele adoece, não aparece e nem pensa,
Tanta coisa a fazer, desculpa esfarrapada,
Se tirar Amor de n(amor)ada, sobra nada.

Raquel Ordones
Uberlândia MG - 10/02/16
Soneto infiel - sem métrica



domingo, 7 de fevereiro de 2016

Ciências, música e poesia

Ciências, música e poesia.

E literaturo-me pelas leis do universo,
Essa energia, toda minha matéria toca,
Intercâmbio do meu ser, e o faz verso,
Processa-me, na propriedade me foca.

Nos relevos de mim há curvas de notas,
Há um conhecimento que a alma grita,
Em um concerto harmonioso me botas,
Em regras variáveis de som me negrita.

Somo-me à sua química e disso, ciente.
Investigo os fenômenos que me causa,
Sigo no verbo, efígie, ritmo e sem pausa.

Multiplico-me, ao subtrai mais potente.
Transformo-me em conjunto de sinergia
Sou as ciências, sou música e sou poesia.


Raquel Ordones
Uberlândia MG – 07/02/16 – 14:47
Soneto infiel – sem métrica

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Falo sério

Falo sério

Eu que dito as minhas notas, escrevo meu poemas,
Rabisco algumas melodias e registro até missiva,
Em contrapeso, a vida me escreve os meus dilemas,
Tornando-se tão intensa, e em absoluto, expressiva.

Aí está a graça da vida, na alma em encantamento,
Essa coisa contra minha vontade, é que me fascina,
Não saber definir com precisão o itinerário do vento,
Ou porque se matar sonhos, a gente se ‘auto chacina’.

Pense se a gente pudesse talhar caminho para o sonho,
Atropelando toda a ação que faz do sonho, um sonhar,
É como se no ato do pingo, a flor repelisse o orvalhar.

E se a gente tivesse certeza de tudo? Chato, suponho!
Essa dúvida que a vida me dá é justamente a poesia.
O charme do mutável causa-me essa irrestrita euforia.


Raquel Ordones
Uberlândia MG – 06/01/2016
Soneto infiel – sem métrica

Nas ruas de mim

Nas ruas de mim

Canteiros mantidos limpos com flores,
Folhas secas do passado são varridas,
Fachadas de emoções em lindas cores,
Na alma doação de sombras despidas.

As ruas de mim têm mão dupla, sabia?
Há quem sobe, além disso, quem desce,
Dia e noite o trafego intenso de poesia,
Sentimento mendigo lá não permanece.

E nas ruas de mim não existe estreiteza,
Placa de Pare para tudo que é mal feito,
Ao coração, a preferência, ele é prefeito.

Todas as ruas de mim têm saída, beleza?
Estacione onde quiser; e já digo, eu multo!
E me pague ali no escurinho, sem tumulto.


Raquel Ordones
Uberlândia MG – 26/01/16
Soneto infiel – sem métrica

Tecendo texto

Tecendo texto

O meu pensamento se desenrola,
Nele há vários fios; multicolores,
Em  cada linha desnovelo a bola,
Entrelinha se costura em amores.

E em vermelho, alinhavo a paixão,
O verde, esperança no esquema,
Amarelo, brilho para a formatação,
E o sentir é translúcido no poema.

Ponto a ponto eu bordo uma paz,
E a tristeza é cosida bem distante,
O ponto cruz eu ato o importante.

Carinho eu afixo com ponto atrás,
Arremato muito bem com alegria,
Então: assim teço a minha poesia.


Raquel Ordones
Uberlândia MG – 20/01/16
Soneto infiel – sem métrica

Nosso filme

Nosso filme

Antes de começar já foi amor à primeira vista,
Acho que muito antes das idéias e da gravação,
No transcorrer de cada minuto foi só conquista,
A gente estrelava; nossa particular constelação.

Não sei definir qual o gênero dessa ímpar obra,
Nossas cenas se cruzam pelas câmeras da vida,
Em um cenário de mundo onde ninguém cobra,
Onde o amor é realmente amor, na alma sentida.

Mocinho ou bandido? Adoro ver os dois atuar,
Há trechos que são indescritíveis, e nem tente!
Algo tão incondicional que impregna na mente.

Tem amor? _Tem! É sentido, sem um dia faltar,
Tem beijo? _Tem! Tem carinho com sinceridade,
Que esse filme se assista em nós pela eternidade.


Raquel Ordones
Uberlândia MG – 19/01/16
Soneto infiel – sem métrica

Hoje não TEM poesia, hoje É!

Hoje não TEM poesia, hoje É!

Hoje não TEM poesia, estou a ouvir a chuva,
E de olhos fechados, consigo sentir essa graça,
O edredom me cai exatamente feito uma luva,
E  estou  inerte para ver se o tempo não passa.

Hoje não TEM poesia, o teclado fecha a tramela,
Letras bailam em meio aos pingos do chuvisco,
E eu aqui ouvindo a cantoria de gotas na janela,
O verso inacabado observa de longe meio arisco.

Hoje não TEM poesia, o úmido se pôs em alerta,
Toda a aquarela da caneta, seca permanece, então,
E em meio ao lápis e seu grafite repousa um vão.

Hoje, minha inspiração encontrar-se boquiaberta,
E nem tão surpresa, com a alma louca em euforia,
É que Deus fez  hoje perfeito, hoje É pura poesia.


Raquel Ordones
Uberlândia MG – 14/01/16
Soneto infiel – sem métrica


Gosto do que invento

Gosto do que invento

Gosto do que invento; essa conexão com verdade,
E manipulo no pensamento tanta coisa para nós,
Gosto desse pensar , sou louca por essa intimidade,
E como é bom  inventar no meu ouvido a sua voz!

Invento lugares, invento carinho com tanto beijo,
Invento cenários lindos, onde você me traz rosas,
Eu crio olhares, palavras, tantos toques no ensejo,
Crio uma cena onde me escreve poemas e prosas.

Gosto de inventar lençóis com cheiro de lavanda,
E de me imaginar em lingerie da sua cor preferida,
Gosto de jantar a luz de vela, e de ser a sua bebida.

Gosto de me inventar; é a minha alma que manda,
Gosto de inventar coisas com você. E como gosto!
Sempre ganho nas absurdezes, comigo nem aposto,

Raquel Ordones
Uberlândia MG – 14/01/16
Soneto infiel – sem métrica




Flores, sabores e amores

Flores, sabores e amores

E a vida nos chega assim: carregada de flores,
Toda misteriosa, mas o amor é a sua essência,
E por todos os caminhos há espinhos, há cores,
Somos provisórios e nada é nossa competência.

E a vida nos chega assim: carregada de fatores,
Ah, todos eles intrometem em nossa passagem,
Alguns mais fortes do que outros, causam dores
Há  exasperados rumores e silêncio da estiagem.

E a vida nos chega assim: carregada de sabores,
Nos deliciosos momentos, em beijos eternizados,
E não tem como ficar narcotizado nos bastidores.

E a vida nos chega assim: carregada de primores,
Ambiciosos engolem pudores, seres desatinados,
E os amores assinalam nas almas os seus olores.

Raquel Ordones
Uberlândia MG – 29/01/16
Soneto infiel – sem métrica

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Parto normal

Parto normal

Abri os olhos, senti umas pontadas já sentidas.
Os pensamentos prenhes de contração aguda de idéias.
A goela rouca, obstruída por um grave afluxo de letras.
A bolsa se arrebenta em derramamento de sentimentos.
Anestesiei-me!
As mãos saturadas de caracteres seguravam o lápis
com maioria de consoantes e desrrimadas;
E os dedos no mesmo instante espargiam vogais;
Tudo certo nos canais.
Apeteci o desligamento do cordão que elava tudo em mim.
Era a hora!
E na fadiga doce do amanhecer a minha mente
teve mais um de tantos de seus partos normais.
_Pari um poema menino!

Raquel Ordones
Uberlândia MG 

A mulinha

A mulinha

Tão pura; infante e tão feliz,
Corria nos prados, saltitante,
Elegante, empinava o nariz,
É  a coisinha mais fascinante.

Forçava as patinhas da frente,
E jogava as traseiras para traz,
Então empinava tão levemente,
Cunhada no seu espírito, a paz.

Faceira; se falasse seria prosa,
Fogosa no brincar, via as matas,
Feito pluma ela voava em patas.

Era tão delicada a cheirar a rosa,
A mulinha parecia sempre sorrir,
E jamais presumia  o seu porvir.


Raquel Ordones
Uberlândia MG 
Soneto infiel – sem métrica

O jornal

O jornal

Ali, embaixo do portão, quanta informação.
O jornal arremessado vinha dizer: Bom dia!
A política imprimia a cara na capa, podridão,
A página policial com pingo de sangue abria.


E muitos gols em fotos faziam uma festança,
Dicas de saúde, de beleza com tanta alegria,
Dólar, agronegócio, apontador da poupança,
Um desfile de modelos com tanta harmonia.


E a listagem do cartório de protesto, imensa.
Um classificado de empregos do dia anterior,
Uma receita de pudim no rodapé, que sabor!


Veio dar o seu recado, o fez de forma intensa,
Ultima página: a literatura em dicas me sorria,
Li e reli o texto em rima; densa aquela poesia. 



Raquel Ordones
Uberlândia MG 
Soneto infiel – sem métrica

Síndrome de Estocolmo

Síndrome de Estocolmo

Jogada ali naquele canto um tanto sórdido,
Entre quatro paredes mofadas e uma grade,
Uma chave na mão daquele raptor mórbido,
Em vestes escuras, aparentemente um frade.

Com medo dos berros num canto se aninha,
Treme; como se fosse desmoronar o mundo,
Ele despe-se do capuz, seu cabelo desalinha,
Os olhos dela corriam de alto a baixo, a fundo.

E crescia dentro daquele ódio, insana paixão,
O corpo arrepiava em descontrolado desejo,
A fúria nos olhos dele, numa boca sem beijo.

Água quente é o que ele oferecia na ocasião,
Um prato de comida remexida era o almoço,
Dentro dela fazia uma ventania, um alvoroço.

Raquel Ordones
Uberlândia MG 
Soneto infiel- sem métrica


Dos amores das mulheres

Dos amores das mulheres

Algumas me amaram, eu sei, sem pretensão,
Pela forma de agir, ou mesmo se declarando,
Há outras que ainda me amam, sem intenção,
São amigas que em mim vão se acumulando.

Mulheres belas visivelmente; até umas feias,
Com intenções quintas, para mim sem nexo,
Eu as respeito incondicionais em suas teias,
É...Talvez perdesse as propriedades esse sexo.

Algumas mulheres me amaram em bebedeira,
Outras em dor de cotovelo desceram do salto,
Não sei se essa é uma espécie de amor assalto.

Algumas mulheres me amaram em choradeira,
De todos esses amores, um único  me marcou,
_Mamãe, sei, para o eterno a senhora me levou.

Raquel Ordones
Uberlândia MG 

Soneto infiel- sem métrica

Flor(i)ndo

Flor(i)ndo

Desabotoam pétalas, aberturas de fragrâncias,
Gretados, os meus eus, numa florada de loucura,
Em mim se fez primavera, tão livre às distâncias,
As ventanias, as tempestades, aos raios e alturas.

E aqui brotou, ergueu por entre mim o seu galho,
E a esperança condimenta em verde sua estadia,
Primaverou, primaverei, ínfimas gotas de orvalho,
Umedecemo-nos a dimanar gozo em carne, poesia.

Movimentos sem ventos; e pelo contato se clama,
Estação de nós, perfumes, transpiração, permuta,
Guerrilhamo-nos, nos entregamos em insana luta.

Esquentados com sol da tez, abancávamos chama,
Molhados, bocas e lábios; irrompia da alma o suor,
Arrebatamento de néctar, apenas o sentimento mor.

Raquel Ordones
Uberlândia MG 

Soneto infiel- sem métrica

Minha poesia preferida

Minha poesia preferida

É... Você sempre será a minha poesia preferida,
Inda que o orbe tente me convencer do contrário,
Inda que a primavera se recuse trazer a margarida,
Inda que a palavra “amor” se exclua do dicionário.

Você sempre será minha poesia elegida e senhora,
Por mais que todos sejam avessos a minha decisão,
E pouco me importa se o mundo me lacre de fora,
Indolente se o gelo cobrir para sempre a vegetação.

Não ligo se o sol decidir se trancar e não aparecer,
Ainda que o outono faça cair  estrelas ressequidas,
Inda que o céu engula o azul e engasgue suas vidas.

Em absoluto: você será a minha poesia, pode crer,
Ainda que todas as cartas se escondam nas mangas,
Então é isso:mesmo que a chuva “chore as pitangas”.

Raquel Ordones
Uberlândia MG 

*soneto infiel – sem métrica

Não me diga que...

Não me diga que...

Nunca cometeu um erro, ainda que pequeno,
Nunca esquivou de tudo sem qualquer ferida,
Que a sua voz malogrou em estranho terreno,
Que do nada se achou com su’alma perdida.

Nunca quis seguir por uma estrada sem fim,
Nem tomou um porre para esquecer alguém,
E não me diga que o seu não nunca foi  sim,
Não me diga que nunca lesou, perdeu o trem.

Não me diga que jamais teve qualquer medo,
Não me diga que não tirou desejos do sonho,
E que nunca choramingou com jeito risonho.

E não me diga que jamais contou um segredo,
Que nunca descumpriu a palavra ou juramento,
E que ninguém jamais roubou seu pensamento.

Raquel Ordones
Uberlândia MG  


Soneto infiel- sem métrica

Pamonha

Pamonha

Em verde
Crescem amarelas.
Bonecas de loiros
Cabelos e dentes.

No ponto se remata e
Desmata;
Descasca; rala;
Sua, canseira,
Na peneira espreme,

Condimentos ao creme,
Enchem-se compotas,
Enfia-lhe o queijo,
Fazem-se laços.

Um jogo ao fogo,
Geme na panela,
Intenso manejo
Em arte o cozer.

Desamarras
Despem-nas.
Gosto que pinga,
Mordem dentes,
Roça-lhe a língua,
Em gozo de caloria
Delicia a poesia.

Sem custo
Degusto...


Raquel Ordones
Uberlândia MG 

Manifesto silente

Manifesto silente

Gritos de saudades calam na espreita,
No alvoroço de sentimento acordado,
Há um querer que ausência não aceita,
O desejo em fios por dentro é bordado.

Lágrima que dimana e flui sem tristeza,
Lábios que movem avocando pelo nome,
Queima na tez uma brasa sempre acesa,
O brado de arrepio no corpo com fome.

Implorando toques, o anseio evidencia,
Estouro de bel-prazer no canto se abafa,
O ser fala mudo:_Permita-me ser alfafa.

Falta a vista, falta carícia, sobra poesia,
É vago o encontro, vaga a troca visceral,
E é faltoso o acomodar anatômico, literal.

Raquel Ordones
Uberlândia MG  

Soneto infiel – sem métrica


Sobre meu estilo poético


Sobre meu estilo poético

Então, minha poesia é adocicada sim,
Agradecida a quem gosta e a quem lê,
E do jeito que ela vem escrevo, enfim,
Ela é simples,  às vezes tem até clichê.

Quase nunca escrevo sobre coisa triste,
Porque disso o mundo já está coalhado,
Quem sabe o meu escrever te conquiste?
Mas digo: por ele eu não mando recado.

Sou explicadinha, aprecio a seqüência,
Começo, meio e fim, em talhe pequeno,
Linhas e entrelinhas com trejeito ameno.

Figura soneto eu amo, fiz permanência,
E na contagem silábica  não me prendo,
Há quem implica, o meu escrito defendo.

Raquel Ordones
Uberlândia MG  


Soneto infiel - sem métrica

Menino de rua

Menino de rua

Não tenho voz, minha aparência emite o pedido.
Porém não dão ouvidos à minha fome, e ela dói,
A agressão mora em minha casa, agora partido,
Meu coração pede a volta; minha alma se destrói.

Quero colo, quero um ombro amigo, quero escola,
Lençol e travesseiro com fragrância de amaciante.
Que saudades eu tenho! Eu estou doido da cachola,
Eu estou tão porco, tão maltrapilho, insignificante.

Mamãe me ouça, eu te preciso e peço, por favor,
_Não me maltrate, sou pedaço de ti, e me respeite,
Quero voltar, minha ferida pede que eu não aceite.

O meu sorriso anda escondido, com tanto desamor,
As minhas lágrimas estão em diarréia; em enchente.
Mamãe me cuide; sou tão miúdo, mas eu sou gente.

Raquel Ordones
Uberlândia MG  

Soneto infiel- sem métrica


A cidade que eu moro

A cidade que eu moro

Minha cidade mistura-se ao verde e ao pôr-do-sol,
O vento varre a cabeleira das árvores, carrega perfume das flores,
E desalinha os meus cabelos; nem escolhe estações.
Há construções antigas, sépias, pedindo socorro para sobreviver
e as construções novas respiram luzes e cores.
A cidade que eu moro é uma pintura pendurada na parede do tempo, onde cada um usa o seu pincel com a cor que lhe convier.
É uma vastidão de terras, divididas e subdivididas, ora naturais, ora cobertas pelo negro piche, asfalto em suas divisórias meio fio.
Às vezes eu olho e vejo que tem até céu no chão.
Aqui, os pássaros não têm hora para cantar, às vezes na madrugada ouvem-se alguns, aproveitando o silêncio para suas declarações de amor.
Há quintais com jabuticabeiras e as mangueiras frutificam nos canteiros das ruas.
Minha cidade tem igrejas de todos os credos, pessoas de tonalidades díspares, como as flores.
O meu mundo é muito simples, quisera eu que a minha cidade fosse harmoniosa como um presépio de Natal.



Raquel Ordones
Uberlândia MG