quinta-feira, 26 de março de 2026

Entre pezinhos e asinhas

Caiu no chão; porém já nasceu muito leve.

Atreve-se a caminhar; ‘é tanta perninha’.

Perdidinha da Silva, o poeta a descreve:

-Deve ser uma lagarta! Mas que gracinha!

 

Aninha nunca canto; e logo sai. Que forte!

O norte faz; e sobe pelo tronco afora.

Agora é chegar num lugar que a conforte.

Morte? Ainda não. É a transformação; chegou a hora.

 

Penhora-se no galho. Lá em baixo, a buva.

Chuva e sol a toca; mas o vento, ali mora.

Demora a pupa; e crisálida é a luva.

 

A saúva passa; o sabiá é xereta,

na vareta, balança a caixa de pandora.

Estoura. E estica as asinhas, a borboleta.

 

Raquel Ordones #ordonismo  #raqueleie

 

cabe com perfeição no silêncio...


 


 


quarta-feira, 25 de março de 2026

Diário

 

 

Hoje pela manhã, outra vez li o jornal.

Local de desgraça; horrores em descarrego.

Emprego ofertando um salário malemal;

Viral, tantas ofertas; charlatão em chamego.

 

Sossego algum. Notícia boa? Nem sinal;

Abismal até; e o mundo pedindo arrego.

Chego a pensar: seria assim mesmo o final?

Surreal; homem lobo do outro num refrego.

 

Labrego a listagem, de protesto normal.

Brutal o tributo, a ilicitude, o morcego.

Pelego de mãe, em um amor fantasmal.

 

Banal morar em likes; vida em desapego.

Escorrego em caráter; dor universal.

Na moral?  Tenho muito medo; em Deus me achego.

 

Raquel Ordones #ordonismo #raqueleie

 

Olhos, abrem e fecham,

informações que chocam ali no papel

com o seu cheiro padrão.

Se espreme, escorre vermelho.

o jornal.

segunda-feira, 23 de março de 2026

O ódio ficou com ódio

  

- Pronto, olhem a alegria sorridente!

- Gente, gente! Como é que isso pode?

- Que bode! Veja o humor todo contente!

(Sente a úlcera e a vesícula eclode.)

 

(Sacode o ódio; inveja remetente.)

- Atente, há uma coisa em mim, e explode!

- Acode, até meu alho tem dor de dente!

- Quente sangue; de torcer o bigode.

 

-Pode essa exultação! Corte bem rente!

-Sustente o seu veneno! Disse o amor.

-Ditador do mal, que você se aguente!

 

(Impotente o ódio tragou o rancor.)

(Vapor se tornou; em fumaça doente.)

(E silente o afeto o fez decompor.)

 

Raquel Ordones #ordonismo #raqueleie

 

 

Quem pode, pode...

E o amor, é desses...

 

sábado, 21 de março de 2026

Intimismo

 

 Da sala observo através da vidraça;

Abraça a minha visão adiante.

bastante; aprecio a efêmera graça.

Engraça o pássaro em canto constante.

 

Instante ímpar, estar viciante;

Variante em cores; nuvem que passa.

Enlaça o galho na galha, incitante.

Vigiante eu, essa cena não repassa.

 

Transpassa a alma; viver é instigante;

Tocante sentir, ainda que nada faça.

Traça dentro afora asa esvoaçante.

 

Calmante; o tempo feito uma trapaça.

Taça cheia liquefaz, visitante;

Confiante acontece; em nada espaça.

 

Raquel Ordones #ordonismo #raqueleie

 

tempo é essa imensidade

fragmentada...

Segundos, minutos, séculos...

Talvez um visitante...

Sinta-o.

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Conto sem desconto


 A chuva despencou. – Mas que surpresa!

Acesa a lanterna, o farol de milha.

-Filha, blusa molhada é beleza!

-Certeza! E nem estou botando pilha.

 

Partilha incrível. Quanta sutileza!

Leveza surreal; perdido em trilha.

Ilha atraente a sua natureza.

A grandeza estampada que fervilha.

 

Cartilha inocência; moça princesa.

Pureza, sem intenção da guerrilha;

Humilha com farta delicadeza.

 

Indefesa perante a chuva; e brilha;

Sapatilha aguada; alma reacesa.

Represa de olhos; do ombro cai a presilha.

 

 

Raquel Ordones #ordonismo #raqueleie

 

 

A beleza é colírio

Perfuma a alma

De’lírio...

quinta-feira, 19 de março de 2026

Ex-vendedor de poesia

 

 Pegou os seus poemas impressos no papel.

Véu cai da alma, sua essência em exposição.

Coração num fio de veia em carretel.

Carrossel: letras, palavras, verso, emoção.

 

Intenção: era espalhar muito além do céu.

Tropel de sentires da sua inspiração.

Sensação livre, sentimentos em rapel;

Cordel, soneto, haicai, até mesmo uma canção.

 

Pretensão apenas: bem distante do Nobel.

Escarcéu; sem venda, nem numa promoção.

Percepção desvalor; do fundo vem o fel.

 

Ao léu jogou seus versos; que decepção!

mão vazia, o dedo acusando: és cartel.

Cruel; tesouro que morre por rejeição.

 

Raquel Ordones #ordonismo #raqueleie

 

 

Olhou o livro de poemas,

Mas o “sistema” disse no ouvido:

É bobagem...